{"id":6345,"date":"2022-04-12T16:41:14","date_gmt":"2022-04-12T16:41:14","guid":{"rendered":"https:\/\/glitzgondim.adv.br\/blog\/o-que-o-estado-tem-a-ver-com-suas-escolhas-afetivas-bem-parana\/"},"modified":"2026-01-04T22:05:44","modified_gmt":"2026-01-04T22:05:44","slug":"o-que-o-estado-tem-a-ver-com-suas-escolhas-afetivas-bem-parana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glitzgondim.adv.br\/en\/direito-de-familia\/o-que-o-estado-tem-a-ver-com-suas-escolhas-afetivas-bem-parana\/","title":{"rendered":"O QUE O ESTADO TEM A VER COM SUAS ESCOLHAS AFETIVAS? (BEM PARAN\u00c1)"},"content":{"rendered":"\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Frederico E. Z. Glitz<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os manuais de gradua\u00e7\u00e3o em Direito, usualmente, apresentam uma interessante fic\u00e7\u00e3o jur\u00eddica: a de que o casamento teria sido o padr\u00e3o da fam\u00edlia brasileira at\u00e9 muito recentemente e que, mais contemporaneamente, fruto de uma constru\u00e7\u00e3o constitucional, tal modelo teria se tornado muito mais plural. Tal entendimento parte, em princ\u00edpio, da premissa de que a legisla\u00e7\u00e3o teria ampla capacidade criativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Costumo entender, contudo, que o papel da lei \u00e9 muito mais reativo, em especial no Direito Privado. Ela se destinaria, neste sentido, muito mais a reconhecer eventuais efeitos, que a proibir a pr\u00e1tica. Eventuais restri\u00e7\u00f5es relacionar-se-iam aos mais raros aspectos da vida social em que \u00e9 necess\u00e1rio um controle de (i)licitude ou ordem p\u00fablica. A abstra\u00e7\u00e3o destes conceitos, entretanto, faz com que muitos sustentassem que seu espa\u00e7o \u00e9 mais amplo, de modo a ler os \u2018reconhecimentos\u2019 legislativos como se fossem \u2018permiss\u00f5es ou proibi\u00e7\u00f5es\u2019. \u00c9 aqui que reside o eterno debate sobre qual modelo familiar teria, ou n\u00e3o, sido acolhido pela legisla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde que os colonizadores europeus aqui chegaram, condi\u00e7\u00f5es f\u00e1ticas impediram a ado\u00e7\u00e3o do modelo matrimonial pela popula\u00e7\u00e3o em geral. Com base em pesquisa hist\u00f3ricas, talvez se pudesse afirmar que o casamento estava muito mais limitado a quem detinha patrim\u00f4nio. A popula\u00e7\u00e3o em geral encontrou outras formas de se relacionar. La\u00e7os afetivos, como se sabe, tendem a independer de formalidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Tribunais viram-se confrontados com esta \u2018rebeldia\u2019 criativa. E, desde sempre, precisaram dar respostas a estes casos. Chegou-se no Brasil, por exemplo, a entend\u00ea-las como \u2018sociedades de fato\u2019, aplicando l\u00f3gica de investimento e de Direito Societ\u00e1rio \u00e0quilo que era uma fam\u00edlia. E assim viram-se os togados a enfrentar fam\u00edlias \u2018desconstitu\u00eddas\u2019, monoparentais e homoafetivas. O interessante \u00e9 que se insistia em afirmar que estes arranjos sociais \u2013 especialmente voltados \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de direitos de personalidade \u2013 n\u00e3o podiam existir. Afinal, diziam, a lei n\u00e3o os mencionava! E a lei, coitada, inerte e culpada! Como se a criatura fosse respons\u00e1vel pela sua cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O Direito Privado n\u00e3o se presta a si mesmo. Sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 pacificar a sociedade e permitir que os indiv\u00edduos possam exercer suas liberdades essenciais, responsabilizando-se e realizando-se por suas escolhas. N\u00e3o cabe ao legislador, em especial no Direito de Fam\u00edlia, pretender vir a ser o or\u00e1culo de moralidades.<\/p>\n\n\n\n<p>O atual debate s\u00e3o os arranjos afetivos que extrapolam os limites da monogamia. Tema, ali\u00e1s, sens\u00edvel no Brasil que ainda penaliza dois casamentos simult\u00e2neos (bigamia, de acordo com o art. 235<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> do C\u00f3digo Penal). O legislador parece ter especial preocupa\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o: classifica a uni\u00e3o est\u00e1vel como uma rela\u00e7\u00e3o monog\u00e2mica (art. 1.273 do C\u00f3digo Civil<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>), assim como o fazia para o casamento (art. 1.514 do C\u00f3digo Civil<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>).<\/p>\n\n\n\n<p>A jurisprud\u00eancia ali\u00e1s, enfrentava o tema pelo filtro da moralidade, tentando identificar situa\u00e7\u00f5es em que \u2018amantes\u2019 precisavam ser afastados(as) do patrim\u00f4nio familiar. Este racioc\u00ednio, ali\u00e1s, permeia a decis\u00e3o do Conselho Nacional de Justi\u00e7a que, em pedido de provid\u00eancias datado de 2018, negou a possibilidade de registro de uni\u00f5es poliafetivas sob o argumento a \u201csociedade brasileira tem a monogamia como elemento estrutural e os tribunais repelem relacionamentos que apresentam paralelismo afetivo\u201d e de que haveria \u201cimaturidade social\u2019 deste tipo de relacionamento<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. \u00c9 com certa ironia, ent\u00e3o, que se tende a esquecer o que o pr\u00f3prio C\u00f3digo Civil comanda (art. 1.513): \u201c\u00c9 defeso a qualquer pessoa, de direito p\u00fablico ou privado, interferir na comunh\u00e3o de vida institu\u00edda pela fam\u00edlia.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, tramita o Projeto de Lei n\u00ba 4.302\/2016 que visa proibir o \u201creconhecimento da \u2018Uni\u00e3o Poliafetiva\u2019 formada por mais de um convivente\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Nele se encontra apensado o Projeto n\u00ba 10.809\/2018 com a exata reda\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o que se coloca, no entanto, \u00e9 at\u00e9 que ponto pode o legislador se imiscuir neste tipo de decis\u00e3o. Com quem nos relacionamos \u00e9 de interesse do Estado? Seria leg\u00edtima este tipo de interven\u00e7\u00e3o nas escolhas individuais? Costumo imaginar que elas n\u00e3o s\u00e3o sequer pr\u00e1ticas, isto porque independentemente do que diga a lei, elas continuar\u00e3o a existir e proliferar; tribunais ser\u00e3o chamados a se manifestar; a doutrina muito discorrer\u00e1 e, no fim, algum efeito jur\u00eddico ter\u00e1 que ser dado. Neste aspecto \u00e9 emblem\u00e1tico o esfor\u00e7o jurisprudencial para se reconhecer as chamadas fam\u00edlias unipessoais para fins de prote\u00e7\u00e3o ao bem de fam\u00edlia. Al\u00e9m disso, tais men\u00e7\u00f5es legislativas gerais e abstratas tendem a n\u00e3o sobreviver \u00e0 realidade: note-se que em outros pa\u00edses uni\u00f5es poliafetivas s\u00e3o comuns e legais. O Brasil recusaria efeitos previdenci\u00e1rios e alimentares a uma fam\u00edlia poliafetiva que para c\u00e1 migrasse?<\/p>\n\n\n\n<p>O espa\u00e7o de realiza\u00e7\u00e3o pessoal \u00e9 marcado pela chamada autonomia privada \u2013 diga-se, assegurada constitucionalmente \u2013 e, portanto, n\u00e3o deve ser objeto de escrut\u00ednio p\u00fablico. Rela\u00e7\u00f5es afetivas est\u00e3o abrangidas pelas liberdades humanas mais b\u00e1sicas e, portanto, negar-lhes efeitos pesa substancialmente. E, se isso tudo n\u00e3o bastasse, negar \u201creconhecimento\u201d ou \u201cregistro\u201d apenas causa mais inseguran\u00e7a para terceiros (que eventualmente precisem conhecer a situa\u00e7\u00e3o patrimonial daquela fam\u00edlia at\u00e9 mesmo para atender \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p>Se a filia\u00e7\u00e3o independe de formalidades; se podemos escolher como nos identificamos e se podemos escolher com quem nos relacionamos; por que ainda discutimos a organiza\u00e7\u00e3o que fazemos disso tudo? O legislador brasileiro, com certeza, tem outras prioridades para abordar.<\/p>\n\n\n\n<p>Artigo publicado no Portal Bem Paran\u00e1 em 12\/04\/2022<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/www.bemparana.com.br\/noticia\/o-que-o-estado-tem-a-ver-com-suas-escolhas-afetivas#.YlXUu-jMJPY\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ARTIGO<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Advogado contratualista. P\u00f3s-doutor em Direito e novas tecnologias.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> Art. 235 &#8211; Contrair algu\u00e9m, sendo casado, novo casamento: Pena &#8211; reclus\u00e3o, de dois a seis anos.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> Art. 1.723. \u00c9 reconhecida como entidade familiar a uni\u00e3o est\u00e1vel entre o homem e a mulher, configurada na conviv\u00eancia p\u00fablica, cont\u00ednua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constitui\u00e7\u00e3o de fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> Art. 1.514. O casamento se realiza no momento em que o homem e a mulher manifestam, perante o juiz, a sua vontade de estabelecer v\u00ednculo conjugal, e o juiz os declara casados.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a> Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.cnj.jus.br\/InfojurisI2\/Jurisprudencia.seam;jsessionid=DE5A3222422A59727199EC826B62482C?jurisprudenciaIdJuris=51260&amp;indiceListaJurisprudencia=6&amp;firstResult=7875&amp;tipoPesquisa=BANCO<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\">[6]<\/a> Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.camara.leg.br\/proposicoesWeb\/fichadetramitacao?idProposicao=2076754\">https:\/\/www.camara.leg.br\/proposicoesWeb\/fichadetramitacao?idProposicao=2076754<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Frederico E. Z. 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